Scout: muito mais que números

Da mesma forma que o esporte num todo, a captação e análise de estatísticas dentro do futebol americano no Brasil ainda engatinha se compararmos com outras ligas pelo mundo. Mas é inegável que houve uma grande evolução nos últimos anos.

Inicialmente, importante dizer que este artigo não busca trazer “verdades irrefutáveis”, mas apenas algumas observações minhas neste tempo acompanhando o esporte. Além disto, diversos de vocês não encontrarão nenhuma “novidade” aqui, mas num esporte ainda tão novo para muitos no Brasil, acredito que alguém poderá extrair algo interessante. Então vamos lá.

Quando comecei a colaborar com o T-Rex na metade de 2015, a primeira conversa do coach Amadeo Salvador comigo foi sobre seu interesse na obtenção de estatísticas diversas – tanto do próprio Rex quanto dos adversários – para melhora do desempenho do time. Eis que descobri que teria uma das novas funções que surgiram dentro do FABR, o estatístico/scouter.

Primeiramente, precisamos dividir este trabalho em duas partes: Avaliação de desempenho da própria equipe e Análise de estatísticas/tendências dos adversários. A primeira diz respeito à coleta de dados coletivos e individuais em jogos, a qual já era realizada anteriormente no time, mas foi aprimorada nesses últimos quatro anos e meio.

Após a criação de um play by play em Excel com alguns campos para preenchimento a cada jogada, hoje é possível visualizar, através de mais de uma dezena de tabelas e gráficos automatizados, inúmeras estatísticas convencionais (jardas terrestres/aéreas, passes completos/incompletos, tackles, sacks, etc) e mais avançadas (números por tempo/quarto da partida, jardas/aproveitamento por gap de corrida ou zona de passe, QB rating por zona, jardas cedidas por jogador/gap/zona, etc).

Apesar destes dados serem bastante interessantes, são apenas números frios que demonstram apenas o “pós-jogo” e não ajudam a desenvolver o “jogo propriamente dito”. Aí que entra a segunda parte do trabalho de scout: a análise prévia dos adversários.

Com a atual disponibilização de todas as partidas em vídeo e a utilização de ferramentas como o Hudl, houve uma facilitação no estudo pré-jogo. “Qual o percentual de vezes que eles passam a bola com 4 receivers alinhados? E com 3? E com 2?” Só para citar um tipo de análise básica do básico do básico.

E aqui quero destacar o esforço recente realizado no Rex pelo Joni Manke, vulgo “Samurai”, analista de tendências da equipe, que desenvolveu um material espetacular para melhor visualização destas informações. Sabe aquele “pranchetão” que os coaches de NFL utilizam? Enfim, é por aí. Só não posso dizer o que tem escrito/tabelado/desenhado nele.

A partir disso, posso dizer que a segunda parte do trabalho do scout deriva uma terceira para os coaches: A criação de um plano de jogo “contra tendência”. Afinal, se atualmente você consegue avaliar todos os seus adversários, eles também podem te analisar e extrair todas as suas “características”. E sua equipe precisa desenvolver algo contra isso.

Acredito que inúmeras equipes que enfrentaram o Rex nos últimos anos realizaram este trabalho, e poderia citar aqui o Espectros no Brasil Bowl como aquela que conseguiu o melhor resultado. No entanto, como acompanhei mais de perto, eu gostaria de destacar o esforço do coach Thiago Rodrigues, o “Pumba”, ex-fullback da seleção, junto ao Istepôs no SC Bowl 2019.

Mesmo com algumas dificuldades de elenco, ele conseguiu implementar um plano de jogo totalmente diferente das partidas anteriores. Não à toa, acabou o primeiro tempo duas posses a frente. O Rex conseguiu virar a partida no segundo tempo, por méritos seus e alguns “problemas” do Istepôs que fugiram do alcance do coach Pumba e não tiram o mérito da estratégia que desenvolveu com o material humano que possuía.

Esse exemplo demonstra a constante necessidade de criação e recriação que o futebol americano exige, onde diversos fatores podem determinar o sucesso de uma equipe em um campeonato inteiro ou simplesmente a vitória em uma mera partida. Se não fossem as mudanças para o segundo tempo, o favorito Rex teria perdido aquele título. E se o Istepôs conseguisse manter a intensidade do primeiro tempo, teria surpreendido a todos e levantado a taça. Apenas 24 minutos separaram o “sucesso” do “fracasso” (ou vice-versa) de um trabalho de 4 meses.

Já vimos times tecnicamente melhores dentro de uma partida perderem por causa da parte física; equipes campeãs que focaram em contratar ótimos jogadores e outras também campeãs que preferiram focar em comissões técnicas para desenvolver novos jogadores; equipes claramente favoritas que perderam “partidas ganhas” porque colapsaram mentalmente, “desdenharam” do adversário ou não conseguiram se adequar a um novo plano de jogo durante a partida.

Esse último item me levaria a comentar sobre o que entendo ser o novo diferencial do trabalho de scout, mas seria mais um longo assunto que precisarei do Anuário 2021 para comentar.

SOBRE O AUTOR

Torcedor do Eagles desde 2013 (Nick Foles, eu te amo), Maurício Júnior começou a acompanhar o FABR durante o Torneio Touchdown 2014. Junto ao T-Rex, colaborou como estatístico e assistente financeiro entre 2015 e 2019. Escreveu matérias sobre FABR para o 10 Jardas, e atualmente colabora com estatísticas para FABR Network, Mapa do FABR e Salão Oval.