O fisioterapeuta no futebol americano: muito mais do que somente tratar

Quem nunca falou ou ouviu: “O fisioterapeuta é o profissional que trata lesões” ou então “Vou ter que ir na clínica de fisioterapia parceira para tratar essa minha dor no ombro”.

Essa talvez seja a definição mais conhecida e falada sobre esses profissionais, principalmente há 5 anos atrás ou mais. Não que esteja errada, longe disso, mas hoje, sabemos que a atuação no futebol americano dos “fisios” é bem mais complexa e presente do que somente a reabilitação.

Possivelmente, de uns anos para cá, a equipe em que você joga, treina ou comanda, passou a ter esse profissional em sua equipe de trabalho. Na maioria dos casos, saiu da clínica e foi para o campo de treino e jogo, estando presente no dia-a-dia de atividades. Essa é uma tendência no esporte em todo o país. Mas por que isso vem acontecendo?

Porque as equipes, sejam os atletas, coachs ou gestores, observaram a necessidade de se preocupar mais com a saúde dos atletas, com a prevenção de lesões e atuação mais presente dos fisioterapeutas. Afinal, as lesões são um empecilho para a performance ideal e atrapalham as equipes de evoluírem.

Sendo assim, o trabalho do fisioterapeuta no futebol americano tem de ser mais complexo e presente, pois apenas esperar as lesões acontecerem, para tratá-las, gera afastamento de treinamentos, queda de performance e déficit técnico aos atletas e equipes. Quem nunca teve de alterar uma programação de treino ou “dobrar” posições porque uma parte da sua equipe estava lesionada?

Pois bem, se o fisioterapeuta não apenas trata lesões, quais as outras atuações dentro de uma equipe de futebol americano?

A International Federation of Sports Physical Therapy (IFSPT) lista 11 competências do fisioterapeuta esportivo, que englobam: prevenção de lesões, reabilitação, melhora de performance, promoção de saúde, divulgação das melhores práticas, profissionalismo e gestão, formação contínua e envolvimento em pesquisa, além de ampliar a prática por meio da inovação e promoção de práticas justas/controle antidoping.

Se observarmos, todas essas competências podem e devem ser levadas para dentro do futebol americano, sendo os três primeiros itens hoje mais presentes nas equipes, mas com todos essas atribuições já acontecendo em vários locais do país. Vamos entender cada uma delas e como o fisioterapeuta atual.

Prevenções e lesões

Talvez o grande carro chefe da fisioterapia esportiva hoje seja a prevenção.

É melhor evitar que um problema aconteça (prevenir) do que lidar com as consequências do problema depois dele ter aparecido (remediar).

Realizar um programa preventivo completo e complexo, possibilita a redução da incidência de lesões em sua equipe e muitas vezes acelera processos de retorno à prática esportiva quando acontecem os processos lesivos.

Estudo, voltado para o futebol (soccer), indica que 33% dos custos com salários das principais equipes inglesas são “perdidos” com lesões. Imagine então um universo igual ao futebol americano praticado no Brasil, onde a maioria das equipes têm dificuldades financeiras e de material humano (atletas) para tocar seus projetos durante o ano?

Quanto será que essas lesões, que geram afastamentos, impactam no orçamento programado pelas gestões? Afinal, vários atletas lesionados podem significar a perda de uma vaga nos playoffs ou então um título, que poderia render maior presença de público (renda de bilheteria e de vendas) e premiações, sem se esquecer de maior visibilidade e consequente maior poder de publicidade/patrocínio. Sem contar, que um atleta lesionado, tem maior chance de se aposentar ou se afastar da equipe, parando de pagar mensalidade (que é uma das maiores fontes de rendas dos projetos brasileiros).

Só para conseguirmos visualizar melhor, novamente pegando o exemplo do soccer, um levantamento feito na Europa, indicou que se as 4 maiores ligas conseguissem diminuir perto de 50% das suas lesões, significaria uma economia de 1 bilhão de dólares por ano aos clubes.

Bem, e como esse processo deve ser montado pelo fisioterapeuta?

A primeira coisa que devemos saber é que programas de prevenção de lesões são complexos e devem ser multidisciplinares, envolvendo todas as áreas de uma equipe. Além disso, ele pode acontecer em três momentos: primário (controlar fatores de risco), secundário (detectar alterações durante a temporada que possam gerar problemas durante a prática) e terciário (resolver, reabilitar ou amenizar as consequências de um problema que surgiu mesmo com os cuidados tomados na prevenção primária e secundária e prevenir recidivas). Qualquer área não trabalhada ou pouco direcionada, pode significar perda do alcance do seu projeto.

Vejamos então as funções na prevenção de lesões, dos envolvidos em uma equipe:

  1. Fisioterapeutas: devem prezar pela prevenção física, avaliando, intervindo e tratando quando necessário, utilizando-se de exercícios preventivos individualizados e em grupo, acompanhamento integral de treinos e jogos, controle de cargas de treinamento, recuperação (recovery) e orientando sempre os atletas sobre temas relacionados a saúde do corpo, como sono, descanso, hidratação, bebidas, semana de jogo, atividades físicas e qualquer outro tema relevante nas práticas diárias.
  2. Preparador físico: importante no trabalho conjunto de controle de carga, com fisioterapeutas e comissão técnica, protegendo o atleta de demandas que possam levar a problemas por sobrecarga. Além disso, fundamentais na preparação dos atletas para demandas físicas e mecânicas do esporte, trabalho de transição e retorno ao esporte (associado ao fisioterapeuta) e direcionamento dos trabalhos físicos a serem desenvolvidos fora dos ambientes de treino.
  3. Nutrição: fundamental no trabalho de supervisão da alimentação, hidratação e suplementação dos atletas, pensando na constante evolução dos atletas, mas também na melhora nutricional que possa gerar melhor recuperação física pós atividades e até mesmo em reabilitação.
  4. Psicologia: o futebol americano é um esporte altamente mental e de repetição, o que pode gerar demandas psicológicas severas aos atletas. A presença desse profissional é fundamental para controle de alterações, principalmente por sabermos que situações psicológicas podem predispor e expor mais os atletas a lesões, além da queda de performance.
  5. Medicina: avaliações mais profundas e acompanhamento de patologias que possam gerar alterações físicas, sejam de origem ortopédica, cardiológica, esportiva e também endócrina, gástrica e neural.
  6. Comissão técnica e diretoria: um programa preventivo bem elaborado e aplicado não terá efeito se todos não se envolverem ou não apoiarem. Comissão técnica e diretoria devem dar apoio integral e reforçar com os atletas a necessidade de seguir as orientações passadas pelos profissionais envolvidos, bem como dar estrutura e autonomia aos profissionais para intervirem.
  7. Atletas: são os mais interessados e importantes em seguir o programa. Um atleta deve ser dedicado físico, mental e social, para que as lesões não ocorram.
  8. Uma equipe bem gerenciada e uniforme, tende a ter melhores resultados nos programas preventivos.

No caso dos fisioterapeutas, a montagem dos exercícios preventivos deve ser baseada na incidência de lesões no esporte, histórico lesivo da sua equipe e individualmente de cada atleta, além dos resultados encontrados nas avaliações fisioterápicas e atividades físicas desenvolvidas por cada atleta fora do ambiente de treino.

Quanto a incidência de lesões no futebol americano praticado no Brasil, ainda temos poucos estudos de incidência de lesões, principalmente grandes estudos, porém, a literatura atual apresenta dados bem próximos, que afirmam que o tornozelo, ombro e joelho são as articulações mais acometidas por lesões. Já as entorses, luxações e estiramentos são os tipos mais presentes, seguidos pelas fraturas e concussões.

Já em relação as avaliações fisioterápicas, interessante se pensar em realizar testes que tragam resultados principalmente relacionados às lesões mais comuns, mas também a aquelas causadas por sobrecargas, como as tendinopatias e dores articulares, por exemplo. Essas lesões muitas vezes não geram afastamentos, mas podem gerar perda de performance, o que também impacta na atuação do atleta. Sendo assim, avaliações que englobem avaliação de mobilidade articular, estabilização central, explosão e resistência muscular são importantes, principalmente se utilizarmos ferramentas de avaliação funcional, que exijam do atleta movimentos mais próximos da prática esportiva.

A coleta de dados históricos de sua equipe e atleta deve ser feita para analisar o público a ser trabalhado, principalmente relacionando aos resultados dos testes físicos. Cada atleta tem um histórico e mecânica particular, por isso a necessidade de também se trabalhar individualmente a prevenção de lesões, em relação a exercícios.

Faltam estudos para confirmar o efeito dos programas de prevenção no futebol americano. Porém, dados já demonstrados por algumas equipes do país, citam diminuição de 50% das ausências em treinos e jogos em função de lesões durante uma temporada, podendo ser uma base para novos trabalhos.

A Confederação Brasileira, baseada justamente na incidência de lesões no esporte nacional, nas alterações mais encontradas em avaliações fisioterápicas pelo país, necessidades do esporte e programas já existentes comprovados no mundo, como o FIFA11, produziu um programa de exercícios preventivos, o CBFA 53, para servir de base aos profissionais de saúde e equipes pelo país, no trabalho de prevenção de lesões. O programa busca trabalhar mobilidades articulares, estabilização central, ativação muscular, trabalhos funcionais e específicos por posição, diminuindo alterações cinesio-funcionais que possam levar a sobrecargas teciduais e possíveis lesões. É uma base inicial para todos os programas a serem desenvolvidos relacionados a prevenção, seja para profissionais experientes ou iniciais no esporte, equipes com e sem estrutura e atletas sem equipes.

Reabilitação

No esporte de alto rendimento, principalmente nos que apresentam contato entre atletas, as lesões estão presentes pela demanda física e traumática. A área mais conhecida de atuação do fisioterapeuta no futebol americano, se faz muito necessária quando acontecem. Cabe ao profissional saber utilizar de todos os recursos que lhe competem em cada situação, buscando o mais rápido e seguro retorno do atleta a prática esportiva.

Importante também lembrarmos que a prevenção de lesões se aplica durante o processo de reabilitação. Por isso, necessário que atleta e profissional saibam exatamente a hora correta de retorno ao esporte, quando o atleta já apresentar pré-requisitos necessários para a atuação, evitando agravamento da lesão, recidivas e até mesmo novos eventos lesivos associados. Como exemplo, evitar que uma lesão no tornozelo possa gerar uma sobrecarga no tendão patelar, em função de um retorno precoce ao esporte, quando ainda apresentava limitações de mobilidade e estabilidade do tornozelo.

Essa tomada de decisão de retorno ao esporte deve sempre ser feita em conjunto: atleta, fisioterapeuta, comissão técnica e médico (quando presente).

Demais competências do fisioterapeuta esportivo:

  1. A melhora da performance está relacionada a plena atuação do atleta, com melhora mecânica, força e ausência de lesões. Importante dizer, que essa área de atuação, fica mais rica quando trabalhada em conjunto com profissionais de educação física. Trabalhar a melhor técnica esportiva, além de controlar e preparar a carga a ser trabalhada pelo atleta, tende a gerar evolução global, levando a melhora de performance.
  2. Todos os profissionais de saúde podem e devem promover a saúde do seu atleta, seja preparando-o melhor, prevenindo lesões, mas principalmente orientando e controlando o atleta sobre cuidados com sua saúde, seja ela ortopédica, cardiorrespiratória, endócrina, neural e por aí vai. Trabalhar o atleta como um ser humano e saber compreender e orientá-lo quanto a práticas seguras de saúde é uma obrigação da atuação do fisioterapeuta.
  3. O fisioterapeuta no futebol americano ainda tem a possibilidade de atuar na gestão, seja ela em departamentos médicos, nas federações e confederações, promovendo a saúde dos atletas, com conteúdo, organização dos departamentos e comissões, sempre em busca da prática segura no esporte. O envolvimento dele nas decisões e determinações em todos os níveis do esporte são interessantes para a evolução dos atletas, equipe e do esporte.
  4. Formação contínua, além do envolvimento em pesquisa e práticas inovadoras, são uma grande necessidade do nosso esporte. Infelizmente, ainda falta formação que traga segurança aos fisioterapeutas na atuação, justamente pela falta de material científico voltado exclusivamente para a nossa área. Mas isso vem mudando e deve estar mais presente nos próximos meses/anos. Muitos novos estudos sobre o esporte no nosso país vêm sendo desenvolvidos por fisioterapeutas, médicos e profissionais de educação física, em todas as regiões, principalmente no Sul. Com a chegada de novas respostas e dúvidas, a área científica dará uma base maior para o trabalho mais seguro dos profissionais e evolução das práticas, acelerando processos de saúde. Trabalhos sobre incidência de lesões, biomecânica dos atletas, eficácia de programas preventivos, são alguns dos temas estudados.
  5. A prática justa e o controle antidoping são desafios a serem superados no nosso esporte. Faltam ainda políticas que inibam, mas o fisioterapeuta deve, novamente, prezar pela saúde de seus atletas. Principalmente, colocar o esportista sempre acima de qualquer conquista ou resultado, trabalhando para a segurança de todos. Palestras, presença mais próxima, orientações individuais, talvez sejam maneiras de se minimizar, enquanto não existem limites e cobranças quanto a esse tema. Saúde em primeiro lugar.

O atendimento imediato em campo e à concussão não são citados diretamente pela IFAF, porém, são de extrema importância no futebol americano. Um fisioterapeuta deve ter capacitação para atendimentos em campo, comuns em treinos e jogos. Essa preparação deve estar relacionada a atendimentos de baixa gravidades, mas também deve ter capacidade de atendimentos complexos e emergenciais. Em função disso, conhecimento adquirido e realização de cursos de primeiros socorros e atendimentos emergenciais são fundamentais para os fisioterapeutas que trabalham no esporte. Saber realizar identificação de lesões, imobilização, transferências, atendimentos emergenciais, incluindo procedimentos de contenção e ressuscitação, além de conhecer os protocolos de campo, são obrigações dos profissionais de saúde. Os atendimentos leves também são importantes, para ajudar a minimizar efeitos lesivos, bem como acelerar processos de retorno ao jogo, quando possível, com segurança aos atletas.

Já em relação a concussão, o fisioterapeuta tem de trabalhar em todas as frentes. Identificação, protocolo de atendimento em campo, remoção para hospital, reabilitação, controle de retorno ao esporte e educação em saúde são alguns dos momentos onde devemos atuar.

Saber atuar em campo para proteger a saúde do atleta com suspeita de concussão, identificando e afastando da atividade, removendo para o hospital quando necessário são fundamentais. Por isso, saber quais sintomas e alterações podem gerar suspeitas e ter experiência na atuação devem ser incentivados pelas equipes.

Somente afastar o atleta alguns dias, esperar um tempo e retorná-lo ao esporte não pode ser usado como parâmetro. Existem protocolos a serem seguidos e etapas a serem cumpridas pelo atleta, para que o retorno aconteça. Nesse período, o fisioterapeuta atua na reabilitação, com controle de cargas e atividades, trabalhos coordenativos e funcionais, tomada de decisões multidisciplinares e acompanhamento integral do atleta.

Além do trabalho com atletas lesados, também deve promover a educação de atletas, coachs e pessoas relacionadas a equipe quanto a concussão (seus sintomas, efeitos e principalmente cuidados), para que possam ajudar na identificação de suspeitas e tragam segurança à prática. O fisioterapeuta deve ter “pulso firme” no controle dos casos. Na dúvida, atleta afastado e toda a equipe deve ter essa consciência. Importante toda a comunidade ser consciente quanto aos perigos da concussão, principalmente em relação a um segundo trauma, que pode levar a sequelas e até mesmo perigo à vida.

Conclusão

O que podemos observar é que a fisioterapia está cada vez mais presente no futebol americano e sua atuação mais ampla e valorizada. Ainda faltam maiores recursos, principalmente financeiros, para que o trabalho seja de excelência, mas o horizonte é bem interessante. A preocupação com a saúde do atleta hoje é real no esporte, porém, não adianta ser somente da boca pra fora ou apenas palavras bonitas em um projeto. Grandes programas de saúde levam tempo, trabalho, investimento e dedicação. E são indispensáveis hoje no nosso esporte. Achar que ter uma clínica parceira para enviar lesionados quando precisar já é o bastante, é não dar a real atenção ao seu atleta. Trazer o fisioterapeuta para dentro do campo, dentro da comissão de saúde e técnica, é utilizar de um profissional capacitado para dar o amplo atendimento ao seu projeto. As equipes que hoje investem nisso, provavelmente irão colher frutos (já colhem) e mudaremos a fama de “esporte violento”.

Parece exagero a importância do fisioterapeuta? Talvez… pergunte ao seu atleta, ao colega de time, pesquise sobre os trabalhos preventivos. Eles lhe dirão o quão importante é nos preocuparmos com a presença do fisioterapeuta e com a saúde e prevenção de lesões no futebol americano.

REFERÊNCIAS

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SOBRE O AUTOR

Raphael Salgado Costa é Fisioterapeuta Crefito 4/167797F. Pós-graduado em Fisioterapia Ortopédica, Esportiva e Terapia Manual. Especialista em Fisioterapia Esportiva (COFFITO/SONAFE). Membro da Sociedade Nacional de Fisioterapia Esportiva SONAFE Brasil. Coordenador Científico Regional da SONAFE Minas Gerais. Ex-Fisioterapeuta do América Locomotiva Futebol Americano. Presidente da Comissão de Prevenção de Lesões e Saúde do Atleta da Confederação Brasileira de Futebol Americano.