A importância da dieta para um atleta de futebol americano

Trabalho com nutrição voltada para o Futebol Americano desde 2016 e tenho notado avanços importantes desde essa época. Sou uma das pioneiras no país e por isso me lembro de muitas vezes explicar o que um nutricionista podia fazer dentro de um time. Hoje, com a popularização do conhecimento, já percebo que as comissões técnicas enxergam a dieta como um dos pilares do bom desempenho.

Um ponto importante é: o futebol americano escolhe quem joga para ele. Isso fica muito claro quando observamos as grandes mudanças físicas que tivemos nos jogadores. Um dos exemplos mais claros é o caso dos Offensive Line (OL), onde foi possível observar um aumento médio de 27,7 kg de massa entre 1942 e 2015. Isso porque o esporte pede atletas cada dia mais adaptados às suas posições.

Gráfico 1. Aumento da massa de OL nas décadas entre 1940 e 2020

Fonte: Anding, 2015

Segundo um índice realizado em 1993, atletas mais altos e com maior massa podem ter diferenças salariais de até $45.000,00. Ao que tudo indica, atualmente esse aumento pode ser ainda maior.

Bom, mas o que fez com que os atletas se tornassem cada vez maiores?

Simples! O mais adaptado e propenso a bons resultados é selecionado por bons times. O que está por trás dessa boa adaptação é o mais significativo: a dieta está mais específica e o treinamento está mais periodizado. As comissões técnicas hoje entendem a importância do estilo de vida do atleta sobre o seu desempenho.

Me atentando à minha especialidade, não se constrói um bom atleta sem dieta. O que diferencia dois bons jogadores é a capacidade de dedicar mais tempo de vida ao combustível que gera o desempenho: a comida.

Um dos grandes desafios no Brasil é que a esmagadora maioria não consegue viver do esporte. Sendo assim, precisa adaptar sua dieta ao trabalho, estudos e família. Porém, nada que um bom planejamento, com uma estratégia bem delineada não resolva.

Sabendo que o FA exige força, potência e boa capacidade aeróbia e anaeróbia, tudo que se tem a fazer é comer conforme essas exigências. Você tem que dar ao seu corpo aquilo que ele precisa para conseguir trabalhar e isso inclui muita comida de verdade: arroz, feijão, proteínas animais ou vegetais, frutas, legumes, etc. O FA não exige alimentos diferentes, só exige um profissional que seja habilitado para usar esses alimentos em combinações que favoreçam seu desempenho em campo.

Talvez a coisa mais importante quando se fala de nutrição para o FA é que o nutricionista precisa conhecer o esporte. Saber a função de cada jogador, a técnica utilizada pelo Head Coach e acima de tudo conhecer o atleta: o que ele gosta de comer, o que cabe em sua realidade financeira e é fácil. Nada de comida gourmet e mil compostos manipulados. É difícil adaptar coisas muito elaboradas precisando trabalhar de segunda a sábado.

Ainda sobre a atuação do nutricionista, é imprescindível que sua dieta seja adaptada a fase esportiva que você está. Por exemplo, fazer uma dieta restrita para perder gordura no meio da temporada é quase como dar um tiro no pé: para performar, você precisa estar com o aporte correto de calorias, se não, a primeira resposta do corpo é o cansaço. E jogador cansado não ganha jogo! Por isso, as escolhas devem ser feitas em conjunto com o nutricionista, buscando sempre a melhor alternativa para todos.

Trouxe alguns motivos pelos quais você precisa comer corretamente se joga FA:

  1. A dieta é a responsável por manter sua intensidade nos treinos e jogos;
  2. Ela é a principal fornecedora de nutrientes para manter seu sistema imunológico;
  3. Atletas bem nutridos apresentam menos lesões;
  4. A recuperação pós treino / pós jogo é mais rápida;
  5. É a partir do aporte calórico que ocorrem as mudanças de composição corporal;
  6. Boas estratégias evitam ou amenizam overtraining;

Ou seja: o melhor jeito de ser selecionado pelo FA é através da sua dieta. Sempre que falamos de dieta, logo vem questões sobre suplementos. Não, você não depende deles para performar.

Talvez o maior benefício de um suplemento seja a capacidade de fazer um atleta treinar mais, aumentando assim sua adaptação ao esporte. Porém, essa sinergia representa uma pequena parcela de um todo.

Uma substância química não é capaz de anular más escolhas alimentares e só representa uma boa opção quando a ingestão de nutrientes é desafiada ou mudanças na dieta não são possíveis.

Até a data de escrita deste artigo, o único suplemento estudado especificamente no FA foi a creatina, que mostrou efeitos ergogênicos nos consumidores. Existem inferências sobre a melhora do desempenho com o uso de proteínas e b-Alanina, mas mesmo esses suplementos devem ser usados mediante indicação nutricional.

Quanto ao uso de aminoácidos isolados como glutamina e BCAA, os estudos só mostram que não existe benefício para os praticantes de esportes. Ou seja: dinheiro jogado fora.

Espero que você tenha aproveitado o conteúdo desse texto e se ainda tiver alguma dúvida, fico à disposição pelo meu Instagram, que é @nutrilorella.

Um abraço!

REFERÊNCIAS

ANDING, Roberta; OLIVER, Jonathan M. Football Player Body Composition: Importance Of Monitoring For Performance And Health. Gatorade Sports Science Institute, abr. 2015. Disponível em: http://bit.ly/2RsXbcZ. Acesso em: 24 jan. 2020.

CORMIE, Prue; MCGUIGAN, Michael R.; NEWTON, Robert U. Developing Maximal Neuromuscular Power. Sports Medicine, v. 41, p. 17–38, 2011.

DENGEL, Donald et al. Body composition and bone mineral density of National Football League players. Journal of Strength and Conditioning Research, v. 28, n. 1, jan. 2014.

EDWARDS, Toby et al. A Narrative Review of the Physical Demands and Injury Incidence in American Football: Application of Current Knowledge and Practices in Workload Management. Sports Medicine, v. 48, p.45-55, 2018.

JALILVAND, Farzad. Strength and Conditioning Considerations for Collegiate American Football. Journal of Australian Strength and Conditioning, 2019.

KELLMANN, Michael. Recovery and Performance in Sport: Consensus Statement. International Journal of Sports Physiology and Performance, v. 13, n. 2, p. 240-245, 2018. Disponível em: http://bit.ly/36mOq8b. Acesso em: 24 jan. 2020.

KREIDER, Richard B. et al. International Society of Sports Nutrition position stand: safety and efficacy of creatine supplementation in exercise, sport and medicine. Journal of Australian Strength and Conditioning, v. 14, 2017. Disponível em: http://bit.ly/37lE7Tj. Acesso em: 24 jan. 2020.

SOBRE A AUTORA

Graduada em Nutrição, pós-graduada em Nutrição Clínica e Metabolismo e em Medicina do Esporte e Atividade Física, Lorella Ferrarezi Barbi é pesquisadora   na   área   de   adaptação   ao treinamento   de   futebol   no laboratório de Bioquímica do Exercício da UNICAMP. Certificada pela FIFA em Football Medicine e pela University of Colorado Boulder em Science of Exercise. No futebol americano, foi fundadora do Departamento de Nutrição da Ponte   Preta   Gorilas   em 2016   e   em   2017   foi   convidada   para   ser   chefe   do Departamento   Médico   da   equipe.   Em   2018   foi   convidada   novamente   para fundar o Departamento de Nutrição do Palmeiras Locomotives, onde trabalha com performance esportiva ainda hoje. Além disso, em 2019 deu início a um programa de consultoria para times de FA da capital paulista.