A fotografia no FABR: dificuldades e desafios

Que o Futebol Americano tem crescido em quantidade e em qualidade em todo o território nacional não é novidade nenhuma, pois todos que acompanham este esporte sabem muito bem disto. O esporte tem dado os primeiros passos em direção à profissionalização e grandes saltos de qualidade na administração das equipes, federações e confederação tem acontecido de forma extremamente rápida e com sucesso cada vez maior.

Mas, diante deste cenário de inegável crescimento, como anda a fotografia esportiva especializada em futebol americano no Brasil? O crescimento quantitativo e qualitativo dos profissionais e das imagens tem acompanhado o sucesso administrativo que o FABR tem alcançado?

Todos os anos vemos novos fotógrafos nas sidelines de todo o Brasil, e graças aos seus trabalhos, equipes têm tido acesso a farto material de qualidade que pode ser – e de fato é – usado para ilustrar matérias e publicidades sobre os jogos e as equipes.

Geralmente, em minha experiência como fotógrafo ligado ao FABR, não tenho encontrado grandes dificuldades em conseguir credenciais para fotografar jogos, mesmo os mais importantes – claro que um bom network ajuda neste momento, para saber quem procurar para falar a respeito.

Muitas equipes e organizadores de partidas disponibilizam na semana do jogo algum tipo de link para cadastramento de imprensa interessada em fazer a cobertura da partida.

Somente jogos mais importantes costumam ter um filtro um pouco mais exigente para ceder as credenciais – e a cada ano as exigências tem aumentado um pouco.

Diante deste cenário, é importante destacar que aqueles que desejam entrar – ou continuar – na carreira de fotógrafo profissional ligado ao FABR devem buscar se qualificar sempre, mantendo-se firme em seu propósito, sabendo que enfrentará algumas dificuldades – principalmente no início de sua carreira –, mas que, apesar disto, criará amizades fortes e duradouras que certamente farão o esforço valer a pena.

Financeiramente falando, a fotografia do FABR ainda – e eu digo de novo: AINDA – não é muito atrativa, pois infelizmente, apesar da importância da fotografia para o marketing das equipes, muitos times ainda não entenderam que precisam de boas fotos para divulgar seus trabalhos e projetos.

Nós fotógrafos temos uma parcela de culpa nesta não-valorização dos profissionais por parte das equipes, pois o que levaria uma equipe a contratar um fotógrafo se o time sabe que, após a partida, terá acesso gratuito as fotos de um dos fotógrafos presentes no campo?

Antes de cobrar das equipes que valorizem nosso trabalho, devemos olhar para nós mesmos e nos perguntar: estamos valorizando nosso próprio trabalho? Ou estamos trabalhando de graça em troca de likes nas redes sociais?

É óbvio que todo iniciante precisa divulgar seu trabalho e se fazer conhecido no meio em que trabalha, e para isso é comum que sejam feitas fotografias de algumas partidas, as quais serão posteriormente publicadas gratuitamente com finalidade publicitária sobre o trabalho do profissional que fez as imagens. Eu mesmo fiz muito isso e acho que todos nós fizemos – e em alguns momentos ainda fazemos.

Sabemos da realidade de muitas equipes, as quais cobram mensalidades dos atletas para que possam praticar o esporte, e, além disso, ainda cobram dos atletas as despesas e custos de viagem, pois o pouco patrocínio que recebem é necessário para arcar com despesas de federalização de atletas e inscrições em campeonatos, além de uniformes e equipamentos.

Atualmente as equipes tem investido principalmente em comissão técnica, sendo comum o pagamento de algum salário e/ou ajuda de custos para técnicos de diversos times.

Em uma partida existem custos de pagamento para árbitros, narradores, transmissões de jogos, equipe médica, ambulância e mais algumas coisas necessárias para o acontecimento da partida. A pergunta que fica é: porque não incluir nestes custos a contratação de um profissional para fotografar a partida e ceder aos times as imagens para que possam ser usadas em suas publicações e ações de marketing?

Infelizmente existe uma prática que é, no mínimo, antiética – e até mesmo ilegal – onde as equipes, conhecendo os perfis dos profissionais de fotografia, visitam seus perfis de suas redes sociais e simplesmente copiam as imagens e as usam – e muitas vezes sem nem sequer citar o autor das imagens.

Muitos pensam que uma imagem publicada em uma rede social é algo de domínio público, mas na verdade NÃO É!

Uma equipe que se utiliza de uma imagem, simplesmente porque estava publicada em uma rede social, pode ser ver levada aos tribunais de justiça para responder por uso indevido de uma fotografia, sendo inclusive condenada a pagar por perdas e danos – patrimoniais e morais – pelo uso sem autorização.

Para as equipes – e também para os canais de imprensa – o ideal é que, antes de utilizar qualquer imagem, procurem o seu autor e conversem sobre a intenção de utilizar a imagem. Eu mesmo nunca impedi, ou criei qualquer dificuldade para o uso de minhas fotografias, e confesso que ser citado como autor de uma imagem é algo muito gratificante – mesmo, e principalmente, quando a utilização é cedida de forma gratuita, pois isto demonstra o respeito pelo nosso trabalho.

Um fotógrafo iniciante, que comece a trabalhar com um equipamento básico, precisa investir, no mínimo, cerca de 3 salários mínimos em equipamentos, sem contar as despesas de deslocamento – de ida e volta – até o campo, além das horas gastas na sideline e ainda mais horas gastas sentado diante de um computador para fazer a edição das imagens. Isto tudo sem mencionar os cursos que deve fazer e horas de estudo que serão necessárias para se capacitar antes de se aventurar em um trabalho.

Um bom fotógrafo profissional, já experiente, geralmente tem o gasto equivalente ao de, no mínimo, um carro popular usado em suas máquinas – pois o bom profissional tem, no mínimo, uma máquina de reserva para uma emergência – e em suas lentes – as quais podem, em alguns modelos, custar mais que uma moto zero quilômetro. Isto é muito investimento para ser desperdiçado – ou desrespeitado – entregando fotos de forma gratuita.

Além destes gastos, todo bom fotógrafo profissional ainda precisa investir em programas de edição de imagens, o que atualmente é feito em forma de assinaturas de licenças de utilização de softwares pagas mensalmente.

Para quem não conhece o trabalho de um fotógrafo, saiba que para cada hora gasta fotografando, são gastas cerca de 2 a 3 horas de edição. Assim, se um jogo de futebol americano tem uma duração de cerca de 2 horas e meia, o fotógrafo deve gastar cerca de 5 a 7 horas para fazer a edição das imagens, investindo assim, no mínimo, 2 dias inteiros de trabalho para entregar as fotos de uma partida.

Diante de tanto investimento, é fácil perceber porque alguns excelentes profissionais acabaram abandonando o FABR para se dedicar a outros esportes – ou outros ramos da fotografia – que sabem valorizar os investimentos feitos, e as horas de trabalho gastas para entregar suas imagens.

Se todos souberem valorizar o trabalho dos profissionais da imagem, todos sairão ganhando e poderão em conjunto, contribuir para o crescimento, desenvolvimento e massificação deste esporte maravilhoso que tanto amamos.

SOBRE O AUTOR 

Enéas Castilho CHIARINI JÚNIOR é fotógrafo profissional desde o final de 2012 e acompanha o Futebol Americano desde 2013. Membro do Foto Clube Pouso Alegre desde 2013 e professor de fotografia do SENAC em Pouso Alegre desde 2016. Autor de 3 exposições fotográficas (uma delas sobre o Futebol Americano) e participante de outras 2 exposições coletivas, todas de curadoria do Foto Clube Pouso Alegre. Com mais de 90 jogos de Futebol Americano fotografados, dentre eles 1 Nacional Bowl, 1 Brasil Bowl, diversos Bowls estaduais e o amistoso Brasil Onças x Argentina Halcones no Mineirão.